Entenda como a brusone afeta a produção de arroz e a segurança alimentar

Entenda como a brusone afeta a produção de arroz e a segurança alimentar

A brusone é uma doença da cultura do arroz que pode causar sérias perdas de produção e ameaça a segurança alimentar mundial. Causada pelo fungo Pyricularia oryzae, a doença já foi identificada em diversos países do globo. Entenda como a brusone afeta a produção de arroz e quais as estratégias de controle da doença.

Brusone do arroz: um problema que ameaça a segurança alimentar

Com a crescente demanda global por alimentos, vem se investindo cada vez mais no aumento de produtividade das culturas agrícolas. Segundo as projeções da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) para 2050, a previsão é de que haja o surgimento de uma crescente escassez de recursos naturais para a agricultura.

O arroz é uma das culturas agrícolas mais importantes do mundo (Fonte: Lillian Matias)

O arroz é uma das culturas agrícolas mais importantes do mundo (Fonte: Lillian Matias)

O arroz é o alimento básico mais consumido por mais de um terço da população mundial. Com isso, um dos maiores entraves para o aumento da produção é a brusone, que vem ameaçando a segurança alimentar global. Suas perdas são variáveis e em condições favoráveis podem causar perda total da colheita. A doença já foi identificada em 85 países produtores de arroz ou regiões em todo o mundo.

Mapa de distribuição de Pyricularia oryzae. (Fonte: plantiwise.org)

Mapa de distribuição de Pyricularia oryzae. (Fonte: plantiwise.org)

Mas, quais são os sintomas causados pela brusone nas plantas?

Os sintomas causados nas plantas

O fungo Pyricularia oryzae, causador da doença, pode infectar as plantas de arroz em qualquer estágio de desenvolvimento. O patógeno produz lesões em folhas, colmos, panículas e grãos, que variam em cor e forma dependendo da resistência varietal, condições ambientais, dentre outras.

Nas folhas, as lesões são alongadas, com bordas de coloração marrom, e o centro da lesão cinza ou esbranquiçada. Já nos colmos, as lesões aparecem na região dos nós, essa infecção leva a uma situação chamada de brusone de pescoço.

Essa última infecção pode ser muito destrutiva, causando falhas no enchimento e redução no peso de grãos ou a quebra da panícula na região afetada.

Sintomas de brusone nas folhas, panícula e lavoura de arroz (Fonte: Lillian Matias)

Sintomas de brusone nas folhas, panícula e lavoura de arroz (Fonte: Lillian Matias)

Quais são, então, os fatores que favorecem a ocorrência da brusone nas lavouras de arroz?

Fatores que favorecem a ocorrência da doença

A brusone tornou-se mais difícil de controlar devido a fatores relacionados ao patógeno, como a capacidade de sobreviver e se multiplicar em condições ambientais adversas e se espalhar facilmente para novos campos. Alguns fatores que favorecem a ocorrência da doença são:

  • Condições ambientais: a gravidade da doença depende da temperatura, condições de campo e umidade relativa. Em geral, temperaturas moderadas (~24 °C), alta umidade relativa (90%), e dias nublados com mais sombra e adensamento de plantas contribuem para a incidência.
  • Plantas daninhas: podem ser hospedeiras do fungo, pois ele pode sobreviver na forma de micélio ou conídio.
  • Época de semeadura: semeaduras tardias aumentam o período de molhamento foliar e há aumento na fonte de inóculo com o decorrer da safra, aumentando seus riscos de ocorrência.
  • Adubação: o excesso ou a deficiência de nutrientes causam alterações nas plantas e afetam a expressão do máximo potencial produtivo das cultivares. A severidade da brusone costuma estar associada ao uso excessivo da adubação nitrogenada.

Diante disso, é preciso desenvolver estratégias de controle da brusone, para evitar as perdas de produtividade que a doença causa.

As principais estratégias de controle da brusone

Dada a importância do arroz como uma fonte de alimento básico e as perdas de rendimento causadas pela doença, a disponibilidade de métodos para controlar a brusone do arroz é crucial para garantir a segurança alimentar global.

Assim, estratégias integrativas são necessárias para o controle bem-sucedido e incluem: métodos genéticos, biológicos, químicos e culturais.

  • Genético: A utilização de cultivares resistentes ainda é o método mais eficiente e sustentável, além de alternar diferentes cultivares numa mesma área de cultivo. Mesmo com o crescente desenvolvimento de pesquisas visando o lançamento de cultivares resistentes, a doença é um fator limitante em lavouras pois o fungo tem grande poder destrutivo. Além disso, a curta durabilidade da resistência das cultivares está ligada a alta variabilidade genética do fungo.
  • Biológico: O controle através de agentes microbianos ou extratos de plantas é, portanto, considerado uma possível abordagem alternativa e sustentável. Segundo revisão de Sella e colaboradores (2021), os trabalhos nesse sentido incluem: bactérias (Bacillus spp., Streptomyces spp.,  Achromobacter e xylosoxidans), extratos de plantas (Saponinas, Angelica gigas e Chrorrolaena odorata) e nanopartículas (Chaetomium lucknowense).
  • Químico: Pensando no controle químico da brusone, é importante o monitoramento da lavoura e o histórico da área para que a tomada de decisão entre aplicar ou não seja de forma assertiva. No Brasil, os fungicidas registrados no Sistema de Agrotóxicos Fitossanitário (AGROFIT, 2021) do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) compreendem 83 produtos comerciais para o controle de brusone, que incluem os grupos químicos: alquilenobis (ditiocarbamato), triazois, estrobilurinas, benzotiazois, dimetilditiocarbamatos, benzimidazois, entre outros.
  • Cultural: No âmbito cultural, as práticas que ajudam no controle da brusone do arroz incluem: adubação equilibrada de nitrogênio, fertilização com silício, eliminação de restos culturais, utilização de sementes sadias, densidade de semeadura adequada, época de semeadura antecipada, controle de plantas daninhas, manejo adequado da irrigação e a rotação de culturas. Segundo vários trabalhos do Dr. Fabrício Rodrigues, o uso de silício aumenta a resistência do arroz à infecção por P. oryzae por meio do acúmulo e fortificação de Si na parede celular epidérmica, o que propicia a diminuição da gravidade da doença.
Desenvolvimento de sintomas de brusone nas folhas tratadas com (+ Si) ou sem silício (-Si) (Fontes: Datnoff e Rodrigues).

Desenvolvimento de sintomas de brusone nas folhas tratadas com (+ Si) ou sem silício (-Si) (Fontes: Datnoff e Rodrigues).

É preciso encarar o desafio do controle da brusone

As condições de proliferação da brusone trazem desafios para esse controle da doença. Mesmo com todas as medidas de controle atualmente aplicadas no campo, a brusone ainda é uma limitação importante para a produção de arroz e seu controle ainda representa um ponto importante para melhora da rizicultura mundial.

Entretanto, é preciso estar atento aos desafios que a brusone traz para o agricultor que cultiva arroz. Por isso, vale destacar que o sucesso da lavoura é dependente da combinação de todos esses manejos e do monitoramento da área.