Entenda como condições de estresse afetam as plantas e como lidar com elas

As plantas são constantemente submetidas a condições ambientais que influenciam a produtividade da lavoura. Alguns fatores podem ocasionar estresse, como água, luz, temperatura, conteúdo de nutrientes e toxinas, como sais e metais pesados, principalmente quando estes não estão disponibilizados em níveis adequados. O excesso ou deficiência de qualquer um destes fatores pode reduzir a produção e causar grandes prejuízos econômicos. Mas como lidar com isso?

Entendendo como as condições de estresse afetam as plantas

As plantas reagem com diversas respostas diferentes em condições de estresse, com o objetivo de manter seu crescimento e reprodução mesmo em situações desfavoráveis. O resultado disso vai depender do nível do estresse, ou seja, quanto mais desequilibrado está o ambiente de cultivo, mais afetada será a produtividade.

Isso acontece porque a planta direciona sua energia para conseguir reverter a situação ao invés de concentrá-la na produção e enchimento de grãos e frutos.

Esta resposta de redução de produtividade é comum às espécies agrícolas mesmo em baixo nível de estresse. Apesar disso, a redução na produtividade é precedida de outras respostas mais específicas de cada cultura, pois isso depende de qual nível de estresse determinada planta é capaz de suportar.

Este fato justifica a importância de personalizar o manejo de acordo com as características da sua lavoura e da sua região de cultivo.

O estresse salino e seus impactos nas plantas

Um dos tipos de estresse que acomete as plantas é o salino, que é caracterizado pelo aumento das concentrações de sais no ambiente de cultivo. Ele é classificado como estresse abiótico, visto que é um fator externo, ou seja, sem vida, que exerce influência sobre as plantas.

Vários aspectos que envolvem a produção vegetal são influenciados pela salinidade, podendo tornar a atividade agrícola economicamente inviável.

A salinidade na agricultura é proveniente da presença de sais na água, no solo ou nos dois. Ela pode ser originada por condições naturais ou por ação antrópica, ou seja, por interferência do homem no ambiente.

O importante a destacar aqui é a salinidade resultante de ação antrópica, visto que o tipo de manejo adotado, principalmente de adubação e irrigação, também tem forte influência nesse parâmetro.

O cloro e o sódio são os principais íons que aumentam a salinidade do solo e, frequentemente, são inseridos na lavoura a partir da adubação. É claro que isso depende das fontes de nutrientes que são utilizadas, uma vez que existem fertilizantes livres destes íons e com baixo índice salino.

Assim, os fertilizantes que possuem cloro em sua constituição podem aumentar a salinização do solo e ocasionar estresse salino nas plantas. Além disso, estes íons podem ser acumulados em altos níveis nos tecidos vegetais, causando toxicidade a ponto de reduzir o desenvolvimento e a produtividade.

Os sintomas da intoxicação das plantas pela alta concentração de sais são visíveis, principalmente, nas folhas e nas raízes, prejudicando a absorção de água e nutrientes, além da fotossíntese, resultando em queda de produtividade da  lavoura.

sintomas da intoxicação das plantas

sintomas da intoxicação das plantas

sintomas da intoxicação das plantas

Sintomas de alta concentração de sais nas plantas. (Fontes: Fahad et al. 2014; Gheyi et al., 2016; Ueno, 2016 e Zhilei et al., 2018.)

Sintomas de alta concentração de sais nas plantas. (Fontes: Fahad et al. 2014; Gheyi et al., 2016;  Ueno, 2016 e Zhilei et al., 2018.)

Em casos de toxidez, uma das formas para retirar a alta concentração de sais no solo é aplicar técnicas de lixiviação destes sais, que é a lavagem destes sais presentes no solo, reduzindo sua concentração na zona radicular a partir do manejo da irrigação, aplicando uma lâmina de água maior do que a necessária.

Além disso, é necessário também realizar técnicas de drenagem para retirar o excesso de água dos solos e diminuir a concentração de sais nas camadas superficiais.

Em vista disso, a melhor estratégia é evitar a salinização do seu solo.

Você sabia que a resposta das plantas à alta salinidade é similar à seca?

Que a seca afeta fortemente a produtividade das culturas agrícolas nós já sabemos. Também sabemos que, quanto menor o suprimento da demanda de água exigida pela cultura, mais esta cultura sofre. Mas você sabia que a resposta das plantas à alta salinidade é similar à seca?

Isso ocorre porque em situações de alta salinidade, as plantas apresentam dificuldade em extrair água do solo.

Os motivos são diferentes: na seca, a planta não absorve água, obviamente, porque não há água disponível. Entretanto, em situações de estresse salino, a água pode estar disponível no sistema, porém a planta não consegue absorver de forma eficiente.

Vamos explicar melhor. O movimento da água no sistema, ou seja, o quanto a planta vai absorver água do solo e perder para a atmosfera, é influenciado pela diferença de energia entre os três fatores agora citados – o solo, a planta e a atmosfera.

Basicamente, a água se movimenta de locais com maior energia para locais de menor energia em busca do equilíbrio. Tecnicamente, chamamos isso de gradiente de potencial.

Este potencial é afetado, entre outros fatores, pela presença de sais no solo. Consequentemente, a alta concentração destes sais afeta também o movimento da água no sistema.

A salinidade diminui o potencial, o qual é chamado de potencial osmótico. Lembra nas aulas de biologia, que a água sai de onde tem mais energia (maior potencial) para onde tem menos energia (menor potencial)?

Logo, nestas condições, o local onde tem menor potencial é o solo e, então, a planta apresenta dificuldade na absorção de água e, consequentemente, de nutrientes.

Quanto maior o nível de salinidade do solo, maior é a porcentagem de redução na absorção de água pelas plantas (Fonte: Gheyi et al., 2016).

Quanto maior o nível de salinidade do solo, maior é a porcentagem de redução na absorção de água pelas plantas (Fonte: Gheyi et al., 2016).

Em situações ideais de cultivo e em ambientes equilibrados, por exemplo, a perda de água pelas plantas é vantajosa para permitir que a fotossíntese ocorra de forma eficiente e para que as espécies vegetais se desenvolvam em seu potencial.

Entretanto, quando há dificuldade em extrair a água do solo, seja pela deficiência ou pela alta salinidade, vários processos ocorrem dentro da planta para evitar a perda de água, como:

  • Mudanças no metabolismo;
  • Mudanças no balanço hormonal;
  • Mudanças nas trocas gasosas das plantas.

Estes processos prejudicam a fotossíntese e reduzem o crescimento e a produtividade das culturas.

Apesar disso, a resposta das plantas aos tipos de estresse depende da espécie, do estádio fenológico, da intensidade, duração e frequência do estresse. Dessa forma, quanto mais cedo conseguir reverter esta situação, ou evitá-la, melhor é para o  cultivo e produtividade.

De forma geral, as frutíferas e as hortaliças são consideradas culturas muito sensíveis à salinidade, enquanto o algodão, por exemplo, é mais tolerante.

Para fins comparativos, a espécie Euhalophyte Salicornia europaea L. foi considerada como uma das mais tolerantes ao sal em todo o mundo, podendo tolerar mais de 1000 mM de NaCl. É o que escreve Sulian e seus colaboradores no estudo Multiple compartmentalization of sodium conferred salt tolerance in Salicornia europaea.

Já no caso da bananeira, alguns estudos demonstram sensibilidade em concentrações próximas a 100 mM de NaCl, ou seja, dez vezes menor.

Também podemos avaliar a sensibilidade das culturas à salinidade a partir da mensuração da condutividade elétrica (CE) do solo utilizando um equipamento denominado condutivímetro ou sensores de umidade de solo específicos para esta finalidade.

Quanto maior a condutividade elétrica, em dS/m, maior é a concentração de sais no solo. A exemplo disso, o algodão possui redução da produção potencial a partir de uma CE no solo de 7,7 dS/m. Já para cana-de-açúcar, milho e citros, esta redução é a partir de 1,7 dS/m. Estes dados podem ser encontrados na publicação Fundamentos da Drenagem Agrícola, de Duarte e demais autores.

O estresse salino pode afetar também a absorção de nutrientes!

Uma das principais formas de absorção de nutrientes pelas plantas é o chamado fluxo de massa, no qual o elemento se move juntamente com a água do solo.

Basicamente, o nutriente utiliza a água como veículo de transporte. O fluxo de massa ocorre a partir da diferença de energia, ou o já mencionado potencial, entre o solo e a raiz. A água arrasta consigo os nutrientes e este movimento é estimulado pela transpiração das plantas.

Em resumo, vimos que a alta concentração de sais é um dos motivos que dificultam a absorção de água e que a planta, por sua vez, evita a perda de água reduzindo a transpiração.

Então, se a absorção dos nutrientes via fluxo de massa é estimulada pela transpiração e a transpiração é reduzida em alta salinidade, qual é o resultado esperado?

A absorção dos nutrientes por fluxo de massa será prejudicada e a eficiência da adubação reduzida – o que impacta na baixa absorção dos nutrientes, e em consequente baixa produtividade.

Além disso, as plantas se desenvolvem menos em ambientes salinizados, uma vez que a redução da transpiração compromete a eficiência da fotossíntese, o que resulta em menor volume das raízes que absorvem os nutrientes.

Por isso, é extremamente importante que você evite a salinização do seu solo e proporcione um ambiente mais equilibrado ao seu cultivo, garantindo a saúde e a produtividade da sua lavoura!