Cinco dicas para melhorar o manejo de potássio no café

Cinco dicas para melhorar o manejo de potássio no café

Apesar de haver uma variedade de compostos químicos que podem influenciar na qualidade do café, o manejo eficiente do potássio está entre os aspectos que pode fazer toda a diferença na lavoura. Isso porque o café é uma cultura bastante exigente em potássio, um nutriente que tem sido considerado, há muito tempo, como o “elemento da qualidade” em nutrição de plantas. Veja cinco dicas para melhorar o manejo do potássio na cultura do café!

A função do potássio no café

O potássio (K) é um nutriente absorvido durante quase todo o ciclo do café, tendo a sua exigência intensificada na fase reprodutiva do cafeeiro. Tal demanda é um reflexo direto das diversas funções que ele desempenha na planta, tendo um impacto significativo principalmente formação e qualidade dos grãos.

 

Mas, como é possível alcançar a alta performance do cafezal por meio da adubação potássica?

1. Determinar a dosagem adequada de potássio considerando o efeito da bienalidade do café

A bienalidade do café pode ser caracterizada como um fenômeno que gera flutuações na produtividade em anos consecutivos.

Esse fenômeno é mais intenso principalmente em plantas cultivadas a sol pleno, já que nos anos de bienalidade positiva, existe um carreamento das reservas para frutificação, em detrimento do crescimento vegetativo dos ramos, reduzindo a área produtiva no próximo ano (bienalidade negativa).

Por isso, ela deve ser considerada para o efeito de cálculo da faixa de produtividade e consequentemente das dosagens da adubação potássica. Antônio Carlos Ribeiro e os demais autores do livro 5ª Aproximação recomendam que a determinação da faixa de produtividade seja feita de duas formas diferentes.

Se a produtividade esperada do ano em que se está trabalhando for inferior à metade daquela obtida no ano anterior (de alta), determina-se a faixa de produtividade como sendo a média entre as duas.

Já nos casos em que não houver produção, como é o caso das lavouras em formação ou ainda que tenham sofrido um processo de poda, a faixa de produtividade a ser considerada para o cálculo da adubação deve ser de fato a esperada.

Ao atenuar o efeito da bienalidade na determinação da faixa de produtividade, é possível alcançar um bom equilíbrio nutricional na planta e reduzir custos com os controles fitossanitários realizados na lavoura.

No artigo Relação nitrogênio/potássio com mancha de Phoma e nutrição de mudas de cafeeiro em solução nutritiva., Luciana M. de Lima e os demais pesquisadores observaram que a nutrição balanceada, além de minimizar alterações nutricionais, pode ser manipulada para reduzir o número de pulverizações com fungicidas.

Esse efeito é um reflexo de uma das funções do potássio, que, quando presente em níveis adequados, aumenta a espessura da cutícula e da parede celular das plantas e confere maior resistência aos tecidos.

Com isso, os fitopatógenos acabam encontrando um impedimento físico que dificulta a sua penetração. Além disso, o potássio também está relacionado com o acúmulo de substâncias que apresentam ação fungistática, reduzindo o progresso das infecções.

2. Considerar a disponibilidade de potássio no solo a curto e a longo prazo

O potássio do solo é dividido em diferentes “reservatórios”, de acordo com a velocidade da disponibilidade para a planta. Quanto maior for o ciclo produtivo da cultura, maior será a sua capacidade de extração de potássio dos “reservatórios” retidos nos minerais do solo ou mesmo dos fertilizantes potássicos de liberação progressiva de nutrientes.

Mas, nem sempre esses “reservatórios” de liberação mais lenta de potássio são avaliados nas análises de solo de rotina. Elas, geralmente, usam extratores como Mehlich e resina, que são capazes de avaliar somente o potássio mais prontamente disponível para absorção pelas plantas.

Porém, Michael J. Bell e outros pesquisadores do livro Improving Potassium Recommendations for Agricultural Crops, destacam que os testes de K-trocável do solo nem sempre estão altamente correlacionados com a resposta da planta.

Ou seja, o cafeicultor não consegue alcançar uma agricultura de alta performance considerando apenas os “reservatórios” de potássio de disponibilidade mais rápida.

Isso porque o desconhecimento do real estado de fertilidade do solo, bem como uma compreensão inadequada da dinâmica solo-planta-produtividade leva ao uso ineficiente de fertilizantes potássicos.

Dessa forma, o melhor manejo de potássio para café é alcançado quando se amplia a visão do ciclo do potássio no solo para avaliação dos melhores métodos de análise de solo para a lavoura.

3. Realizar a aplicação localizada do potássio na lavoura

A aplicação localizada do potássio na lavoura permite um melhor aproveitamento dos nutrientes pelas plantas, pois eles estarão mais próximos da principal via de assimilação de nutrientes: as raízes.

A Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado Minas Gerais (EMATER-MG), recomenda que a máxima efetividade da adubação é alcançada quando os nutrientes são aplicados debaixo da saia do cafeeiro, dos dois lados da planta.

Além da aplicação localizada aumentar o aproveitamento e o efeito residual dos fertilizantes potássicos, ela também mitiga as perdas de nutrientes pelos processos de lixiviação e volatilização.

Entretanto, esses efeitos só são mais evidentes em lavouras que recebem aplicações de fontes de potássio com liberação gradual de nutrientes e baixo índice salino.

Fertilizantes potássicos com essas características proporcionam um maior equilíbrio entre a taxa de liberação de potássio do fertilizante e a taxa de absorção de nutrientes pela planta, e evitam a salinização do solo, que pode comprometer o aproveitamento de potássio pela planta.

No artigo Crescimento de cultivares de cafeeiro conilon submetidas ao estresse salino-hídrico, Amansleone da Silva Temoteo e outros pesquisadores destacam que a salinidade afeta negativamente a massa de matéria seca de folha, caule, ramo e raiz de duas cultivares de café.Efeito da salinidade sobre a produção de matéria seca de duas cultivares de café.

Efeito da salinidade sobre a produção de matéria seca de duas cultivares de café. (Fonte: TEMOTEO et al., 2015)

4. Investir em plantas que promovam uma maior ciclagem de nutrientes na lavoura

Nem sempre o cafezal consegue aproveitar a totalidade do potássio aplicado, principalmente quando são usadas fontes muito solúveis de potássio que liberam todo o conteúdo de potássio no momento da aplicação.

Isso faz com que todo o restante do potássio disponível na solução do solo fique muito suscetível para ser deslocado para as camadas mais profundas ou ainda ser fixado nas partículas do solo, tornando-o inacessível para posterior absorção pelas raízes das plantas.

Uma das formas de tornar esse potássio novamente disponível para a lavoura e melhorar o seu aproveitamento pelas plantas é implementando um sistema de consórcio no cafezal, ou seja, realizando o plantio de culturas que promovam a intensificação da ciclagem de nutrientes na lavoura.

A ciclagem de nutrientes pode ser caracterizada como a contínua transferência de substâncias entre o solo e as plantas, realizada pela ação dos microrganismos do solo na decomposição e mineralização da matéria orgânica.

A Dra. Márcia Maria Rosa Magri explica como funciona a ciclagem de nutrientes realizada pela ação dos microrganismos do solo.

A matéria orgânica é gerada naturalmente a partir do envelhecimento e morte de partes das plantas de café, mas a sua produção pode ser muito mais significativa com o manejo de culturas nas entrelinhas.

As culturas destinadas à ciclagem de nutrientes, geralmente apresentam um sistema radicular mais agressivo, que supera facilmente a profundidade máxima de 1,9 m alcançada pelas raízes do café.

Assim, essas plantas conseguem acessar aquele potássio que foi levado para as camadas mais profundas do solo e trazê-lo novamente à superfície, sob a forma de matéria orgânica.

Uma cultura muito utilizada no plantio de entrelinhas são as braquiárias, que são capazes de alcançar até 4m de profundidade no solo e podem reciclar mais de 400 kg.ha-1 de potássio, como destacado por Marcelo Raphael Volf no estudo Formas e disponibilidade de potássio nos solos do Vale do Araguaia.

Nesse estudo, o autor explica que a braquiária extrai potássio da fração não-trocável e transfere para a fração trocável, aumentando o teor de K trocável da camada mais superficial do solo.

5. Evitar o uso de fontes de potássio com altas concentrações de cloro

Apesar do cloro ser um micronutriente necessário para o desenvolvimento das culturas, as exigências nutricionais por esse elemento já são naturalmente supridas por teores presentes na água e no solo.

Dessa forma, a adição de altas concentrações de cloro na lavoura através de insumos agrícolas, como o Cloreto de Potássio (KCl), quase sempre terão um efeito negativo no agroecossistema, seja pela manifestação de sintomas de toxicidade das plantas, seja pelos diversos malefícios que ele proporciona para o ecossistema do solo.

Para a cultura do café, o excesso de cloro tem um efeito ainda mais indesejável: ele pode comprometer a atividade de uma enzima que está significativamente ligada à qualidade da bebida, a polifenoloxidase.

A polifenoloxidase, também conhecida pela sigla PPO, é uma enzima cúprica que faz parte de um grupo de substâncias conhecidas como compostos fenólicos. Ela está presente em uma ampla variedade de tecidos desempenhando diversas funções, mas é a sua presença nos grãos que tem atraído o interesse de muitos pesquisadores e cafeicultores.

No artigo Nutrição mineral do cafeeiro e qualidade da bebida, a doutora em Nutrição de Solos Hermínia Emília Prieto Martinez, junto a outros pesquisadores, descreve que a atividade da polifenoloxidase está significativamente ligada à qualidade da bebida do café.

Porém, a PPO tem sua atividade inibida na presença de altos teores de cloro, uma vez que o excesso dos íons de cloro leva a precipitação do íon Cl com o Cu2+, reduzindo a ativação da enzima.

Assim, o cafeicultor deve evitar o uso de fontes de potássio com altas concentrações de cloro, como o Cloreto de Potássio, a fim de garantir uma melhor qualidade dos grãos e ainda evitar outras limitações que fertilizantes como o KCl impõe para a lavoura.

Como, então, escolher a fonte de potássio ideal para o café capaz de melhorar o manejo de potássio para café?

A escolha das fontes de potássio para o café pode determinar a eficiência do manejo

Para escolher fontes de potássio mais eficientes e com mais vantagens para o café, o agricultor deve considerar alguns aspectos dos fertilizantes potássicos disponíveis no mercado:

  • Avaliando o potencial da matéria-prima utilizada na produção do fertilizante potássico;
  • Valorizando as fontes de potássio de liberação gradual;
  • Observando o índice salino e a concentração de cloro;
  • Buscando por benefícios que vão além da nutrição vegetal.

Ao observar esses aspectos, o cafeicultor garante uma escolha assertiva do fertilizante potássico ideal para a adubação da sua lavoura e tem em mãos uma poderosa ferramenta para melhorar o manejo de potássio para café.

 

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