Rochagem tudo o que você precisa saber sobre o uso de pós de rocha na agricultura

Rochagem: tudo o que você precisa saber sobre o uso de pós de rocha na agricultura

Pó de rocha é um tipo de insumo utilizado na técnica de adubação agrícola conhecida como rochagemDe maneira geral, o pó de rocha é resultante de rochas trituradas em diferentes granulometrias que são aplicadas ao solo. 

Mas, para que servem exatamente o pó de rocha e a rochagemrochagem é uma técnica que pode complementar a adubação tradicional, feita com fertilizantes químicos, para suprir o solo com os minerais perdidos durante o processo da produção agrícola.  

Isso traz muitos benefícios, tanto em termos de qualidade da lavoura quanto em termos de eficiência dos processos e economia para o agricultor. Mas, para entender tudo isso, precisamos primeiro entender melhor o que é o pó de rocha.  

O que é pó de rocha?

O pó de rocha é um insumo agrícola feito a partir de minerais que passam por um processo de trituração para que ele possa ser utilizado na técnica da rochagem. Mas não é qualquer mineral ou rocha que pode ser utilizado para isso.  

É preciso que as matériasprimas tenham requisitos mínimos de eficiência agrícola para que possam ser aproveitadas na rochagemOu seja, é preciso que o resultado final dos processos de fabricação do pó de rocha ajude o solo a repor os nutrientes que são extraídos pelas plantas durante o seu processo de crescimento.  

Conceito de Rochagem

Fonte: Eder Martins. Embrapa, 2012 

Além disso, mesmo os fertilizantes convencionais utilizam matérias-primas que são rochas. A diferença é que no caso destes, há um tratamento com substâncias químicas que ajudam a aumentar a concentração e solubilidade dos nutrientes.  

Isso, a princípio, pode parecer bom, mas muitas vezes os fertilizantes químicos convencionais geram problemas, como uma alta taxa de lixiviação e alguns causam distúrbios no solo, como a compactação, a salinidade, a acidificação, a diminuição da taxa de retenção de água e danos a microbiota.  

Como surgiu a rochagem 

 A rochagem é uma técnica conhecidhá bastante tempo, com os primeiros trabalhos sobre a técnica aparecendo no final do século XIX. Entre eles, temos o trabalho do Dr. William A. Albrecht, PhD, Chefe do Departamento de Solos da Universidade do Missouri e presidente da Soil Science Society of America que cunhou a expressão “insoluble yet available” (insolúvel, porém disponível). 

Isso significa que, apesar de serem insolúveis em água, como os fertilizantes convencionais, o pó de rocha tem nutrientes disponíveis para o solo e para as plantas. Recentemente, a rochagem tem ganhado a atenção dos agricultores pelos seus benefícios, que incluem: 

  • Melhora da qualidade física e química e do solo; 
  • Aumento da CTC do solo; 
  • Aumento do pH do solo; 
  • Aumento da eficiência do uso de nutrientes; 
  • Disponibilização de nutrientes de forma gradativa e contínua; 
  • Estímulo da atividade biológica do solo e das raízes das plantas; 
  • Redução da perda de nutrientes; 
  • Redução de custos. 

No Brasil, a técnica da rochagem também é conhecida como remineralização do solo. A Embrapa e o Serviço Geológico do Brasil (CPRM) passaram a investigar mais intensamente a rochagem a partir do final da década de 90, utilizando rochas regionais disponíveis no solo brasileiro, como o siltito glauconítico encontrado em São Gotardo, Minas Gerais 

O pó de rocha como um insumo foi denominado agromineral e reconhecido oficialmente pelo Ministério da Agricultura como fertilizante através da Lei 12.890, de 2013, que alterou a lei 6.894, de 1980. A regulamentação da lei, entretanto, só foi ser feita um pouco mais tarde, em 2016. 

Além dos benefícios do pó de rocha na melhora da estruturação e das propriedades do solo eles têm outra grande vantagem, que é disponibilizar nutrientes que geralmente são ignorados na hora de planejar o manejo, mas que contribuem para que as plantas se desenvolvam de maneira adequada. 

O pó de rocha fornece às plantas os nutrientes que elas precisam

O pó de rocha, além de disponibilizar seus nutrientes de maneira gradual e menos suscetível à lixiviação, é uma fonte importante de micronutrientes.  

Muitos dos fertilizantes feitos a partir do pó de rocha contém nutrientes como o boro, magnésio, manganês, o cobre e o zinco, entre outros. Esses nutrientes são necessários em menor quantidade que os conhecidos como macronutrientes: o nitrogênio, o fósforo e o potássio ou NPK.  Entretanto, sua ação é muito importante nos processos de crescimento das plantas 

A falta de algum desses micronutrientes é um fator que pode limitar a produtividade da lavoura. Muitas vezes, sem identificar corretamente que o que falta em seu manejo é a adição de um micronutriente, o produtor adiciona mais fertilizantes químicos convencionais, que geralmente são fórmulas muito concentradas de NPK, piorando a situação.   

Nutrientes

A Lei de Liebig, também conhecida por Lei dos Mínimos estabelece que o desenvolvimento de uma planta será limitado pela falta de um nutriente, mesmo que todos os outros elementos ou fatores estejam presentes. 

Isso porque o excesso de um macronutriente afeta a disponibilidade dos micronutrientes. Por exemplo: o excesso de nitrogênio afeta a disponibilidade de boro e cobre. Muito fósforo no solo também afeta a disponibilidade de cobre e zinco. Potássio em excesso diminui a disponibilidade magnésio e boro.  

É nesse momento que a rochagem se torna uma técnica importante para corrigir esses problemas de nutrição da lavoura, fornecendo às plantas os micronutrientes e equilibrando os níveis de macronutrientes no solo.  

Incluir o pó de rocha no manejo de nutrição da lavoura é importante para o agricultor manter esses níveis de nutrientes equilibrados e em quantidades que as plantas precisam. Outra vantagem é em relação à aplicação. 

 Por geralmente terem uma granulação mais fina, o pó de rocha também permite uma gama maior de formas de aplicação, seja ela foliar seja ela diretamente no solo. A aplicação foliar beneficia as plantas que precisam de certos nutrientes em suas partes aéreas, como as folhas, já que o fertilizante é aplicado diretamente nesse local.  

aplicação do pó de rocha

Aplicação do pó de rocha. Foto: Guto Silveira. Fonte: Embrapa 

Mas mesmo a aplicação do pó de rocha no solo tem vantagens, como a já citada melhora da estruturação e das propriedades químicas do solo. Além disso, a ação conjunta dos benefícios do pó de rocha traz outras vantagens em sua utilização no manejo da lavoura, como a sua atuação como defensivo contra pragas. 

O uso do pó de rocha como defensivo contra pragas e doenças 

Um dos benefícios do pó de rocha, como vimos, é o estímulo da atividade biológica do solo e das raízes das plantas. Isso tem impactos, por exemplo, no aumento das defesas naturais das plantas contra pragas e doenças.  

A atividade biológica do solo e das raízes das plantas está ligada aos microrganismos que compõem o que chamamos de microbioma do solo. Muitas vezes, pensamos nos microrganismos como um mal a ser combatido, mas a verdade é que muitos deles são muito benéficos para o crescimento e desenvolvimento saudável das lavouras.  

 Para compreender isso de maneira clara, podemos fazer uma relação com o corpo humano: temos em nosso organismo, microrganismos que são imprescindíveis para que ele funcione de maneira adequada. Da mesma forma, o microbioma do solo é importante para que o ambiente em que as plantas crescem seja mais saudável e elas consigam se desenvolver melhor. 

Os pós de rocha que nutrem o solo com silício também são particularmente efetivos nesse aumento das defesas naturais das plantas contra pragas e doenças. Isso porque diversas pesquisas mostram como o silício estimula tanto processos bioquímicos quanto forma barreiras físicas através da sua deposição nos tecidos vegetais. 

O Dr. Fabrício Rodrigues, maior autoridade em silício no mundo, explica que o silício age de modos diferentes em cada planta. Nas chamadas plantas dicotiledôneas, como o café e a soja, ele é mais absorvido pelas raízes.

Já nas plantas monocotiledôneas, como o arroz e o sorgo, existe o deslocamento para as partes aéreas, como as folhas. Os benefícios, entretanto, são os mesmos

O Dr. Fabrício apresenta os resultados benéficos de uma tecnologia que tem silício na cultura de soja e arroz:

Como o pó de rocha pode ajudar a combater os malefícios dos fertilizantes convencionais? 

Além de ajudar no combate a pragas e doenças, o uso do pó de rocha também ajuda a minimizar os efeitos negativos dos fertilizantes convencionais.  

Como já vimos, um dos grandes problemas dos fertilizantes convencionais é a sua alta solubilidade. Muitas vezes isso é visto como algo positivo, já que os nutrientes ficam disponíveis de maneira mais rápida para as plantas.  

Entretanto, essa alta solubilidade traz consigo alguns problemas, principalmente para climas tropicais como os do Brasil. A lixiviação, por exemplo, é um desses problemas. O excesso de chuvas ou uma irrigação mal planejada faz com que os nutrientes se percam para as camadas mais profundas do solo.  

Outro problema de fertilizantes convencionais, como o Cloreto de Potássio (KCl), é que eles têm um alto nível de cloro. Isso contribui para o aumento da salinidade do solo. Com o aumento da salinidade, a retenção de umidade diminui, o que traz impactos diretos no microbioma e na estrutura do solo, que fica mais sujeito à compactação.  

A acidificação, ou seja, a diminuição do pH do solo também é um problema comum nos fertilizantes convencionais, especialmente nos que tem alto nível de cloro. O uso do pó de rocha ajuda a minimizar tanto a acidificação, como os outros efeitos negativos dos fertilizantes convencionais.  

 Tipos de pó de rocha no mercado 

Existem vários tipos de pó de rocha disponíveis no mercadoVejamos abaixo alguns tipos de pó de rocha e suas principais características: 

  • Fonolito 

Fonolito é uma rocha ígnea vulcânica composta por feldspato potássico feldspatoides. Ele é fonte de potássio, silício e ferro. Entretanto, é preciso mais pesquisas sobre a liberação de metais potencialmente tóxicos pelfonolito, por exemplo cádmio. O uso contínuo e em doses elevadas também pode resultar em estresse salino, já que o fonolito disponibiliza muito sódio para o solo.  

  • Kamafugito 

O termo kamafugito na verdade se refere a um grupo de rochas ígneas, que inclui leucititos, olivina melilitos, alguns lamprófiros ultrabásicos e alguns kimberlitos micáceos. Seu uso na agricultura se relaciona principalmente com a sua capacidade de liberação de potássio e fósforo 

  • Biotita xisto 

Produzido a partir de resíduo da produção de brita e de areia artificial, esse pó de rocha apresenta bons resultados na nutrição de potássio e magnésio, diminuindo também a concentração de alumínio no solo.  

  • Micaxisto  

Micaxistos são rochas metamórficas de xistosidade acentuada, ou seja, costuma ser encontrado em forma de lâminas. É uma rocha dura, formada essencialmente, por quartzo e mica (moscovite e/ou biotite), podendo conter feldspato, e alguns aglomerados provenientes do cimento, granadas, estaurolitesilimanite e anfíbola e agramitilotiotenatoliotenatoÉ utilizado na agricultura como uma fonte de potássio, mas têm um teor relativamente baixo desse nutriente. É comumente utilizado junto ao fosforito, rocha que tem alto teor de fosfato.  

  • Basalto 

O basalto é uma rocha magmática de cor preta, composta por quartzo, mica e feldspato. São considerados rochas básicas, tendo um papel importante na formação dos solos. São facilmente intemperizáveis e ricos em cátions. São fontes de silício, contendo também teores relativamente baixos de cálcio e traços de potássio, fósforo e magnésio. 

  • Argilas 

A argila é um cristal de rocha de tamanho muito reduzido, menor que 2 micrômetros. Ela promove a estabilização química e a proteção física do solo, melhorando a capacidade de retenção de água, embora essa água nem sempre esteja disponível para o solo. A argila também aumenta a possibilidade de compactação do solo. Existem dois tipos de argila: a 1:1 e a 2:1. A diferença entre elas está no arranjo das camadas de silício e de alumínio dos minerais. Os principais argilominerais 1:1 são a caulinita, gibbsitagoethita e a hematita. Já os principais argilominerais 2:1 são a esmectita e a vermiculita. Por causa do seu arranjo estrutural, a argila 2:1 possui uma CTC maior que a argila 1:1.

  • Siltito glauconítico   

siltito glauconítico é uma rocha sedimentar, encontrada na região de São Gotardo, Minas Gerais e rica em glauconita. A glauconita é utilizada na agricultura, continuamente, desde 1760 nos Estados Unidos. O siltito glauconítico possui propriedades para o desenvolvimento e nutrição das plantas, além de promover a melhora da estruturação do solo. É livre de sódio, cloro, acidificação, salinidade e compactação, além de ter efeito residual de seus nutrientes e promover a retenção de nutrientes e água no solosiltito glauconítico é uma matéria-prima que também está registrada como fertilizante mineral simples no Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento. 

Rochagem: uma técnica que pode melhorar o manejo agrícola 

rochagem desponta como uma técnica que pode ajudar no caminho de inovação da agriculturaSão várias rochas que podem ser utilizadas como fontes de nutrientes para o solo, cada uma com características diferentes e formas diferentes de ser incluídas no manejo.  

Entender mais sobre a rochagem e aprender a incorporá-la no manejo da lavoura é o caminho para produzir mais, com mais qualidade e sustentabilidade.