Entenda os impactos das crises geopolíticas no setor de fertilizantes

Entenda os impactos das crises geopolíticas no setor de fertilizantes

A geopolítica afeta o mercado de fertilizantes. Crises nos países fornecedores impactam a cadeia e a vida dos agricultores do Brasil e do mundo.

No 31 de agosto, o evento Encontro com Gigantes, promovido pela Verde, empresa que produz o fertilizante K Forte ®️, conversou com Magnus Berge, especialista no assunto.

Magnus Berge é fundador e diretor executivo da Acerto Limited, consultoria independente que tem como missão trazer mais transparência para os mercados latino-americanos de fertilizantes. Magnus tem 20 anos de experiência em inteligência de mercado e contou que a empresa foi inaugurada em 2017, em Londres.

O suporte no Brasil auxilia a entender o mercado interno, particularmente no estado do Mato Grosso, maior estado produtor de agricultura no país. Magnus comentou sobre a atuação da Acerto Limited que conta como fonte de informações e clientes os produtores de fertilizantes, traders, importadores, misturadoras, distribuidores, cooperativas e agricultores.

Segundo ele, lidar com os players do mercado internacional e do Brasil ajuda a entender como o mercado hoje é muito conectado:

“Conversamos com vários produtores de todas as partes do mundo, pois precisamos entender os fluxos comerciais, fora do Brasil, sabendo que obviamente isso tem um impacto. Houve uma série de licitações de ureia na Índia, por exemplo, que trouxe alterações nos preços. Esse produto é enviado em grande parte do Oriente Médio. Como a Índia, o Brasil é tambem dependente do Oriente Médio, onde grande parte da ureia é produzida”.

Impactos das crises geopolíticas em relação a ureia – China e Índia:

Um exemplo citado por Magnus durante a mesa de conversa foi a crise fronteiriça entre China e Índia e suas repercussões no mercado de ureia. Os dois países têm uma disputa territorial em suas fronteiras há bastante tempo, mas, no dia 05 de maio, os conflitos atingiram os maiores níveis de violência dos últimos 50 anos.

Isso fez com que houvesse pressões para que a Índia boicotasse as importações chinesas, incluindo de ureia, explica Magnus:

“No caso da ureia vimos esse conflito entre China e Índia e o boicote dos produtos chineses. Cerca de dois meses atrás, houve o impacto disso com o surgimento de novas cláusulas para a importação de ureia.”

É importante ressaltar que a Índia é um dos maiores importadores de fertilizantes chineses. Para contornar a situação, os fornecedores chineses e que estão localizados no país, passaram a usar traders baseados em locais fora da China.

Perguntado por Cristiano Veloso sobre a possibilidade de o conflito gerar retaliações similares do lado chinês, Magnus disse que acredita que a China tem uma visão mais pragmática nas suas decisões comerciais, com Cristiano acrescentando que não acredita que os chineses arriscariam gerar uma crise no mercado de alimentos mundial no cenário atual.

Impactos das crises geopolíticas em relação ao fosfato – Estados Unidos e Marrocos:

Outro exemplo de como a geopolítica tem gerado interferência no mercado de fertilizantes é o do fosfato, com uma disputa entre Estados Unidos e Marrocos. Devido ao fato de as reservas de fosfato marroquinas serem maiores e ao custo maior de mineração da rocha na Flórida, o preço do fosfato do Marrocos era muito mais barato.

Isso fez com que a Mosaic apelasse ao Departamento de Comércio e à Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos (USITC), que decidiu abrir investigações com relação às importações de fosfato do Marrocos e também da Rússia.

Com isso, os preços dos fertilizantes de fosfato subiram tanto nos Estados Unidos quanto internacionalmente. Ao falar do Brasil, Magnus Berge, disse que estamos olhando para 355 dólares porque não há oferta suficiente, porque o mercado está forte no momento.

A crise na Bielorrússia e os reflexos no mercado de potássio

Já em relação ao potássio, Magnus relembrou o que aconteceu em 2013, com a quebra do cartel da BPC, formado pela Belaruskali e a Uralkali, que respondia por 70% do comércio mundial de potássio.

Essa separação do cartel da BPC foi motivada por conflitos que se estendiam além das questões comerciais e de mercado. Isso fez com que os preços da commodity caíssem acentuadamente.

Entretanto, agora vemos uma situação diferente, com tensões políticas na Bielorrússia fazendo com que parte da força de trabalho da BPC entrasse de greve. A incerteza que isso causou, segundo Magnus, fez com que os preços de potássio subissem. No Brasil, essa alta foi de pelo menos 10 dólares por tonelada.

O mediador Cristiano Veloso trouxe então uma questão que precisa ser avaliada: será uma crise mundial no mercado de potássio o próximo cisne-negro na economia mundial? A teoria do cisne-negro fala de um evento imprevisto que pode ter impactos devastadores para a sociedade.

Como exemplo de um acontecimento imprevisível relacionado ao potássio que teve grandes impactos na economia mundial, temos a inundação de uma mina russa em 2003, que fez com que os preços do potássio chegassem a 1200 dólares por toneladas.

Mas a questão é: esses eventos são imprevisíveis ou imprevistos? No caso da inundação da mina, haveria medidas de precaução que poderiam evitar o acidente. Logo, pode-se fazer uma extensão da pergunta: existe uma forma de se precaver para que uma crise em um mercado não tenha impactos tão gigantescos na economia global?

Cristiano Veloso lembrou da importância do potássio não só para a agricultura, mas também para o setor energético no mundo e em especial no Brasil:

“Para que uma planta cresça ela precisa de, pelo menos, três macronutrientes essenciais: nitrogênio, fosfato e potássio. Tendo os fertilizantes aplicados no solo, os alimentos são cultivados e vão parar na mesa. Potássio também é energia, só no Brasil são mais de 12 milhões de hectares de cana plantada para produção de etanol. E milhões de carros no Brasil usam o etanol, assim como a eletricidade, sendo uma economia fundamental para o país”.

Cristiano apontou também sobre o momento de conscientização sustentável em que vivemos, aquecimento global, e destacou que o uso do potássio tem ainda um grande impacto no microbioma do solo, além apresentar diversos casos sobre esse impacto geopolítico dos fertilizantes.

Entender como as complexidades geradas por um mundo globalizado, em que política, movimentos sociais e economia estão tão interligados é um passo para estar mais preparado e buscar melhores soluções para quando as crises acontecerem.

Não perca os próximos eventos! Confira toda a programação do Encontro com Gigantes e faça sua inscrição pelo link: www.kforte.com.br/encontrocomgigantes

Magnus Berge – Magnus Berge é Fundador e Diretor Executivo da Acerto Limited, consultoria independente que tem como missão trazer mais transparência para os mercados latino-americanos de fertilizantes. Com mais de 20 anos de experiência em inteligência de mercado, Magnus tem quase 15 anos de experiência na análise de mercado de fertlizantes, realizando numerosas avaliações de preço e desenvolvendo metodologias robustas. Magnus teve um papel chave no lançamento de publicações da indústria de fertilizantes, incluindo relatórios semanais de mercados globais, regionais e doméstico e também relatórios de perspectiva de mercado. Além disso, ele também já apresentou trabalhos para clientes e em conferências. Magnus Berge é bacharel em Economia pela Northeastern University em Boston, Massachussetts (EUA