Como os microrganismos podem melhorar o ecossistema do solo

Como os microrganismos podem melhorar o ecossistema do solo?

Os microrganismos compõem o ecossistema mais biodiverso do planeta: o solo. Eles são responsáveis por desempenhar funções essenciais para garantir a produtividade das culturas, como as relações simbióticas, ciclagem de nutrientes e promoção do crescimento vegetal.

Para falar sobre esse assunto, a Doutora em Microbiologia Aplicada e professora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Dra. Márcia Maria Rosa Magri, participou do “Encontro com Gigantes – Como os microrganismos auxiliam na qualidade do solo?”.

O evento foi promovido pela Verde, empresa que produz os fertilizantes BAKS, K Forte®, K Forte Boro e Silício Forte, no dia 08 de abril de 2021.

Você pode conferir a conversa, mediada por Rodrigo Mac Leod, na íntegra pelo link:

A relação dos microrganismos com o solo

A relação dos microrganismos com o solo começa com o entendimento de que eles são uma parte integrante desse ecossistema. Então, o solo passa a ser compreendido como sistema que possui aspectos químicos, físicos e biológicos:

“Quem não estuda em profundidade o solo tem a percepção de que ele é um suporte inerte constituído quase que exclusivamente por partículas minerais e matéria orgânica. Na realidade, o solo está muito longe de ser um ambiente: ele é um ecossistema abundante em vida, que abriga uma grande quantidade de comunidades constituídas microrganismos, insetos e plantas, que interagem entre si e com o solo.”

Mas, segundo a Dra. Márcia Maria, durante muito tempo o solo foi manejado considerando apenas os dois primeiros aspectos. Fato esse que se reflete nos diversos problemas que a agricultura ainda enfrenta, como a degradação do solo e a queda de produtividade dos cultivos.

Isso acontece porque a parte mineral, a matéria orgânica e os organismos vivos formam uma série de relações interdependentes, que criam um meio heterogêneo capaz de suportar a vida nas suas mais variadas formas. Isso é tão intenso que uma amostra de solo do tamanho de uma colher possui mais microrganismos do que o número total de pessoas do planeta.

Então, entender as relações e a grande biodiversidade de microrganismos no solo passa a ser um dos grandes desafios da ciência moderna. A Dra. Márcia Maria apontou que já se evoluiu muito nessa compreensão, mesmo que somente 1% de todos os microrganismos presentes no solo consigam ser trabalhados em laboratório.

A limitação laboratorial vai além de se conseguir sucesso no processo de isolamento das espécies a campo. Ela também se estende à limitação das condições dos microrganismos em laboratório, não sendo possível mimetizar as complexas e diversas relações do solo com esses seres.

Porém, tais limitações não impediram o avanço das pesquisas e avanços na área, que passaram inclusive a ter um novo enfoque, de acordo com Prof. Márcia:

“Há um tempo atrás, quando pensávamos em microbiologia e agricultura, falávamos muito sobre fitopatógenos que causam doenças em plantas, então sempre queríamos evitar a presença dos microrganismos. Mas a maior parte desses seres são benéficos para planta, então precisamos compreender essas relações ecológicas dos microrganismos com a planta, para melhorar a produção vegetal”

Quais, então, são essas relações benéficas que os microrganismos tem com o solo e como elas afetam a sua qualidade?

Como a qualidade do solo é afetada pelos microrganismos

A qualidade do solo é afetada pelos microrganismos por meio das 5 principais funções que eles desempenham, sendo elas:

  • Decomposição;
  • Ciclagem de nutrientes;
  • Manutenção do carbono;
  • Simbiose com as raízes;
  • Promoção de crescimento vegetal.

Enquanto seres decompositores primários, os microrganismos realizam a decomposição e mineralização da matéria orgânica. A Dra. Márcia Maria explicou um pouco desse processo:

“Os microrganismos de decomposição primária produzem enzimas que vão quebrar moléculas orgânicas mais complexas como celulose, proteínas e lipídeos. Isso forma as moléculas orgânicas mais simples, os monômeros, que serão absorvidos e utilizados pelos microrganismos para produção de energia. Nessa etapa ocorre o processo de mineralização, quando a matéria orgânica passa de um estado orgânico para inorgânico que é absorvido pelas plantas.”

Dessa forma, os microrganismos passam a ter um impacto direto na nutrição vegetal, com a modificação da espécie química dos nutrientes presentes no solo. Além disso, quando uma planta passa pelo processo natural de envelhecimento e morre, ela volta a compor a matéria orgânica e entra novamente no ciclo.

A manutenção desse processo é a segunda função dos microrganismos, a ciclagem dos nutrientes. A Prof. Márcia explicou que a ciclagem de nutrientes, também denominada como ciclos biogeoquímicos, possui uma função muito importante no solo, por envolver a passagem dos elementos do meio ambiente, para os organismos vivos e destes de volta para o meio.

Alguns elementos que passam pelos ciclos biogeoquímicos são:

  • Nitrogênio;
  • Fósforo;
  • Cálcio;
  • Carbono;
  • Enxofre.

Essa função ecológica desempenhada pelos microrganismos permite a utilização de outra técnica: a biorremediação. Ela consiste na descontaminação e recuperação de solos degradados, usando da ciclagem natural dos elementos promovida pelos microrganismos para decompor poluentes domésticos, industriais e da agricultura.

A degradação dos solos não está associada somente a introdução de compostos poluentes, mas também com as práticas de manejo. A Dra. Márcia Maria exemplificou com o revolvimento do solo, que é responsável pela degradação da matéria orgânica, queda da biodiversidade vegetal e consequentemente de microrganismos.

A consequência disso é um desequilíbrio no ecossistema, tanto a nível das populações de pragas e fitopatógenos, quanto a níveis físicos de desagregação das partículas do solo. A desagregação ocorre pela redução da disponibilidade do carbono orgânico, outra das funções dos microrganismos:

A manutenção do carbono no solo é importante para mitigar efeitos causados pela liberação do carbono na atmosfera, diminuindo assim problemas de efeito estufa e mudanças climáticas. Além disso, o carbono orgânico tem um papel essencial para manter os agregados do solo, mantendo características importantes de porosidade, mitigação de processos erosivos e a capacidade do solo em reter cátions, que é muito importante para a fertilidade do solo”.

Como grande parte dos microrganismos ficam concentrados nos primeiros 20cm do solo, os efeitos diretos da fertilidade do solo gerados por eles, são potencializados pela função de simbiose, realizada pelos fungos micorrízicos.

Ao se associarem com as raízes das plantas, eles aumentam a superfície de absorção, se comportando como uma extensão do sistema radicular. Com isso, o solo é favorecido com a formação de agregados, como a produção de glomalina. A planta também recebe alguns benefícios, como a proteção contra patógenos.

A Prof. Márcia explicou que os fungos também estão inclusos em outro grupo de microrganismos, denominados promotores de crescimento.  Eles apresentam uma diversidade de efeitos nas plantas, como:

  • Produção de hormônios vegetais que estimulam o crescimento vegetal;
  • Auxilio a nutrição da planta com a disponibilização de nutrientes no solo;
  • Controle patógenos ou pragas;
  • Indução do sistema imunológico da planta, fazendo com que ela fique mais resistente a estresses bióticos e abióticos.

Como então potencializar ao máximo essas funções dos microrganismos?

Manejos que auxiliam a qualidade biológica do solo

As funções dos microrganismos podem ser potencializadas através de algumas formas de manejo, que favorecem a qualidade biológica do solo. A Dra. Márcia Maria mencionou que, apesar de ainda não existirem valores de referência laboratoriais para mensurar essa qualidade, análises comparativas têm gerado muitos dados para tomadas de decisão no campo.

As análises comparativas envolvem a avaliação das comunidades de microrganismos presentes no solo antes e depois da realização de algum tipo de manejo. Alguns desses manejos que já comprovaram efeitos benéficos são:

  • Aumento da biodiversidade, com práticas de rotação de culturas e plantio entre linhas;
  • Adição e manutenção de matéria orgânica no solo, com práticas de cobertura vegetal no solo, incorporação de plantas e adição de materiais ricos em húmus e minerais;
  • Adição de microrganismos através dos produtos biológicos comerciais.

Com isso, o agricultor passa a ter em mãos ferramentas para desenvolver a qualidade biológica do solo e potencializar a produtividade das lavouras. Para entender mais sobre como os microrganismos auxiliam na qualidade do solo, confira o vídeo do Encontro com Gigantes na íntegra!

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